quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Fazendo da Janela uma Arma de Tortura



  Fico por horas parado à frente da janela, apenas observando. A coisa que muito faço nessa minha humilde vida é observar. Observo os homens, os animais – qual é mesma a diferença entre os dois? –, observo as plantas, os carros... e minha observação se apega a outros sentidos, abrangendo não apenas a visão, mas também a audição. O som dos homens, dos animais, das plantas, dos carros. Aliás, o que se tem a mais em uma cidade além de tudo isso? E eu lhe respondo, em uma cidade existe solidão, perseverança e, muitas vezes, o realizar de sonhos.

   Observo o mendigo na esquina à frente da minha casa e penso em que momento de sua vida ele errou? Porque foi parar nas ruas? Deitado em uma calçada? Coberto por alguns jornais? Comendo o restante de um sanduíche velho que alguém não quis mais? Onde esse homem errou? Será que um dia ele já foi como eu? Apenas um jovem curioso e persistente que abandonou sua família na roça, para tentar a sorte na cidade grande? Trabalhar, estudar, aprender, se formar, crescer e poder mudar uma realidade? E então aonde ele errou? O que eu devo fazer para não cometer os mesmos erros? Por isso que eu gosto de observar: às vezes o erro do outro se torna um espelho para nossa vitória.

   Não apenas falando do mendigo ao querer mostrar como a cidade é solitária, mas também olhando a mim mesmo, parado agora na frente dessa janela, vendo as luzes nas casas do vizinho, ouvindo o som da TV lá do outro lado, à um muro de distancia. Ouvindo as crianças brincando no terreiro pequenino, muito diferente da roça onde eu cresci, onde terra e liberdade eram infinitas. As crianças da cidade crescem como prisioneiros do medo, cercados por muros altos, cravejados de balas e adornado com cacos de vidro. Olho pela janela, e mesmo me deparando com essa realidade tão contrastante com a minha, sinto saudade. Mesmo cercado por muros altos, posso ouvir e sentir a felicidade emanando pelas janelinhas iluminadas dos prédios. E eu aqui, tão só, tão longe da minha verdadeira casa, tão longe de todos aqueles que acreditam em mim, tão longe de todos que eu amo e que eu sei que me amam também. E o que me resta é minha outra paixão, a escrita. Compartilhar com o invisível meu sentimento.

   E isso então me lembra de outra coisa: perseverança. Abdicar do nosso lar, da nossa terra, dos nossos amigos, da nossa família. Vivendo de aluguel, dividindo casa com estranhos, ou amigos que também perseveram. Trabalhando durante todo o dia, estudando durante toda a noite, dormindo mal, acordando mal, se alimentando mal. Tendo que enfrentar os ônibus lotados, o transito congestionado, o corre-corre de um lugar que nunca para. Tudo isso é um exemplo vivo de perseverança, na busca da realização de sonhos.

Sonhos, outra coisa de que uma cidade é feita. E mais uma vez me lembro do mendigo na calçada do outro lado da rua. Quais seriam os seus sonhos? A cidade é cruel, muitas vezes tira de uma pessoa a única coisa que a faz acordar no dia seguinte. O acreditar que amanhã será melhor, que sua perseverança o levará para um conforto futuro, que todo seu sacrifício vale a pena quando o que se busca é a vitória.

   Parece que estou até falando de alguma batalha épica a procura do Santo Graal, mas é apenas o sonho de um jovem da zona rural querendo se formar em uma universidade e realizar seu sonho. O difícil é ter que conviver com a solidão, andar de mãos dadas com a perseverança, para que no final o sonho seja alcançado. Parece uma coisa tão simples, mas para alguém que gosta de observar, nada é tão simples quanto parece.

   Agora fecho a janela, ligo a TV e assim, vendo todos meus móveis trazidos do meu quarto antigo, tento me convencer de que estou em casa, lá na roça. Que a uma parede de distancia, minha mãe lava a louça do jantar. Que o barulho do carro lá fora, é do meu irmão chegando. E que a campainha do vizinho que toca, é um dos meus amigos que pensaram em me fazer uma visita. E a solidão volta pouco à pouco, me apego a perseverança e os sonhos voltam a fervilhar na minha mente. Eu hei de vencer!



R.S.Boning.

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