Fico
por horas parado à frente da janela, apenas observando. A coisa que muito faço
nessa minha humilde vida é observar. Observo os homens, os animais – qual é
mesma a diferença entre os dois? –, observo as plantas, os carros... e minha
observação se apega a outros sentidos, abrangendo não apenas a visão, mas
também a audição. O som dos homens, dos animais, das plantas, dos carros.
Aliás, o que se tem a mais em uma cidade além de tudo isso? E eu lhe respondo,
em uma cidade existe solidão, perseverança e, muitas vezes, o realizar de
sonhos.
Observo
o mendigo na esquina à frente da minha casa e penso em que momento de sua vida
ele errou? Porque foi parar nas ruas? Deitado em uma calçada? Coberto por
alguns jornais? Comendo o restante de um sanduíche velho que alguém não quis
mais? Onde esse homem errou? Será que um dia ele já foi como eu? Apenas um
jovem curioso e persistente que abandonou sua família na roça, para tentar a
sorte na cidade grande? Trabalhar, estudar, aprender, se formar, crescer e
poder mudar uma realidade? E então aonde ele errou? O que eu devo fazer para
não cometer os mesmos erros? Por isso que eu gosto de observar: às vezes o erro
do outro se torna um espelho para nossa vitória.
Não
apenas falando do mendigo ao querer mostrar como a cidade é solitária, mas
também olhando a mim mesmo, parado agora na frente dessa janela, vendo as luzes
nas casas do vizinho, ouvindo o som da TV lá do outro lado, à um muro de
distancia. Ouvindo as crianças brincando no terreiro pequenino, muito diferente
da roça onde eu cresci, onde terra e liberdade eram infinitas. As crianças da
cidade crescem como prisioneiros do medo, cercados por muros altos, cravejados
de balas e adornado com cacos de vidro. Olho pela janela, e mesmo me deparando
com essa realidade tão contrastante com a minha, sinto saudade. Mesmo cercado
por muros altos, posso ouvir e sentir a felicidade emanando pelas janelinhas
iluminadas dos prédios. E eu aqui, tão só, tão longe da minha verdadeira casa,
tão longe de todos aqueles que acreditam em mim, tão longe de todos que eu amo
e que eu sei que me amam também. E o que me resta é minha outra paixão, a
escrita. Compartilhar com o invisível meu sentimento.
E isso
então me lembra de outra coisa: perseverança. Abdicar do nosso lar, da nossa
terra, dos nossos amigos, da nossa família. Vivendo de aluguel, dividindo casa
com estranhos, ou amigos que também perseveram. Trabalhando durante todo o dia,
estudando durante toda a noite, dormindo mal, acordando mal, se alimentando
mal. Tendo que enfrentar os ônibus lotados, o transito congestionado, o
corre-corre de um lugar que nunca para. Tudo isso é um exemplo vivo de
perseverança, na busca da realização de sonhos.
Sonhos,
outra coisa de que uma cidade é feita. E mais uma vez me lembro do mendigo na
calçada do outro lado da rua. Quais seriam os seus sonhos? A cidade é cruel,
muitas vezes tira de uma pessoa a única coisa que a faz acordar no dia seguinte.
O acreditar que amanhã será melhor, que sua perseverança o levará para um
conforto futuro, que todo seu sacrifício vale a pena quando o que se busca é a
vitória.
Parece
que estou até falando de alguma batalha épica a procura do Santo Graal, mas é
apenas o sonho de um jovem da zona rural querendo se formar em uma universidade
e realizar seu sonho. O difícil é ter que conviver com a solidão, andar de mãos
dadas com a perseverança, para que no final o sonho seja alcançado. Parece uma
coisa tão simples, mas para alguém que gosta de observar, nada é tão simples
quanto parece.
Agora
fecho a janela, ligo a TV e assim, vendo todos meus móveis trazidos do meu
quarto antigo, tento me convencer de que estou em casa, lá na roça. Que a uma
parede de distancia, minha mãe lava a louça do jantar. Que o barulho do carro
lá fora, é do meu irmão chegando. E que a campainha do vizinho que toca, é um
dos meus amigos que pensaram em me fazer uma visita. E a solidão volta pouco à
pouco, me apego a perseverança e os sonhos voltam a fervilhar na minha mente.
Eu hei de vencer!
R.S.Boning.

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